22 de dezembro de 2011

19 de dezembro de 2011

Privataria

13 de dezembro de 2011

e o livro?

28 de novembro de 2011

Ab'Saber: Se Dilma ouvisse quem entende, não concordaria com Código

Retirado do Terra Magazine



O geógrafo Aziz Ab'Aaber: Tem gente que tem propriedade de um milhão de hectares na Amazônia
O geógrafo Aziz Ab'Aaber: "Tem gente que tem propriedade de um milhão de hectares na Amazônia"











Dayanne Sousa

"O geógrafo Aziz Ab'Saber vê com gravidade os rumos da política ambiental brasileira. Enquanto a proposta de reforma no Código Florestal avança e pode ser aprovada em definitivo no próximo mês, estudos apontam erros na concessão de florestas para manejo sustentável. "É muito sério", sentencia o cientista e professor da Universidade de São Paulo (USP).

- Se a dona Dilma ouvisse os cientistas e pessoas que entendem da Amazônia, ela não iria concordar com o Código - critica. Para ele, a discussão está rodeada por intenções apenas políticas. "Eu acho que o pessoal do governo, sobretudo o pessoal da Agricultura e da Ciência e Tecnologia estão inventando tudo o que podem para fazer política".

Estudo feito pela Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq), da USP, apontou que o manejo sustentável - regulado pela Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006 - não é viável economicamente. Segundo a pesquisa coordenada pelo professor Edson Vidal, o intervalo de 30 anos imposto para o ciclo de corte não permite a recuperação das espécies com maior interesse comercial.

Ab'Saber destaca a pressão de grupos ruralistas e avalia que há um grande interesse pela manutenção de propriedades na Amazônia.

- Muita gente quer espaço como patrimônio, não é para explorar de forma sustentável. Tem gente que tem propriedade de um milhão de hectares na Amazônia. Até gente do exterior.

Leia a entrevista.

Um artigo recente da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq) dá poucas esperanças de sucesso para o chamado manejo sustentável. A pesquisa estabelece que não seria nem mesmo economicamente viável.
Eu acho que o pessoal do governo, sobretudo o pessoal da Agricultura e da Ciência e Tecnologia estão inventando tudo o que podem para fazer política. O pessoal da Esalq tem suas razões. Lá no governo a coisa está muito séria, a Dilma herdou do Lula um quadro extremamente complicado. E ainda colocaram na Ciência e Tecnologia uma pessoa que nunca gostou de ciência, nunca fez ciência. É muito sério, eu não quero nem dar minha opinião porque eu tenho muitos inimigos. Você precisa ver como o Aldo Rebelo ficou furioso comigo porque eu fiz uma crítica séria da revisão do Código Florestal que ele queria.

Um embate inevitável...
Um dia desses o jornal colocou um morrinho baixinho com um pouquinho de árvore em cima para interpretar as bobagens que o Aldo falou sobre proteção de topos de morro. Só que ele não sabe nada sobre as cimeiras de certas áreas que tem terras altas. Nas regiões intermediárias de 100, de 150 metros de terrenos cristalinos e solo vermelho, tem que conservar toda a cimeira, não é um "morrotezinho". E essas pessoas não sabem enxergar o que está perto dos seus olhos. Aí começa a fazer desenho, deixar que os jornalistas - que não têm culpa - pensem que é um morrotezinho, mas é uma cimeira de serranias florestadas, como é a Cantareira. E a zona costeira também tem outros problemas, precisa de proteção. É preciso conhecer o Brasil!

A política de concessão de florestas tem que ser revista?
Eles estão querendo, em cima do erro grande que já foi feito sobre a revisão do Código Florestal, ampliar a possibilidade de usar espaços em áreas que são reservas integradas na Amazônia. É uma coisa a mais. Precisa ser entendida pela pressão que a dona Kátia Abreu (DEM-TO) e outros estão fazendo. Eles querem é o espaço da Amazônia. Muita gente quer espaço como patrimônio, não é para explorar de forma sustentável.

Se essas alternativas não funcionam, como então cumprir a proposta de aliar desenvolvimento econômico com preservação?
A alternativa é não ampliar o espaço da Reserva Legal das propriedades. Tem gente que tem propriedade de um milhão de hectares na Amazônia. Até gente do exterior. Se você, em vez de conservar os 20% passíveis de serem ocupados por atividades agrárias, passar para 80%, imagina o que vai ser. Vão arrasar tudo, vender para terceiros desesperados para ter um patrimoniozinho.

Como o senhor tem acompanhado a discussão do Código Florestal? Tem alguma expectativa de que ela possa terminar bem?
Se a dona Dilma ouvisse os cientistas e pessoas que entendem da Amazônia, ela não iria concordar com o Código. Tenho plena certeza, pela competência e pela sensatez que ela tem, ela não iria concordar com o que esse pessoal está fazendo."

2 de novembro de 2011

Kennedy Alencar - Lula

Eu não vou me mover

1 de novembro de 2011

Guia de boas maneiras, por Maria Inês Nassif

Da Carta Maior

Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo

A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso.

A cultura de tentar ganhar no grito tem prevalecido sobre a boa educação e o senso de humanidade na política brasileira. E o alvo preferencial do “vale-tudo” é, em disparada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por algo mais do que uma mera coincidência, nunca antes na história desse país um senador havia ameaçado bater no presidente da República, na tribuna do Legislativo. Nunca se tratou tão desrespeitosamente um chefe de governo. Nunca questionou-se tanto o merecimento de um presidente – e Lula, além de eleito duas vezes pelo voto direto e secreto, foi o único a terminar o mandato com popularidade maior do que quando o iniciou.

A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. A campanha que se espalhou nas redes sociais pelos adversários políticos de Lula, para que ele se trate no Sistema Único de Saúde (SUS), é de um mau gosto atroz. A jornalista que o culpou, no ar, pelo câncer que o vitimou, atribuindo a doença a uma “vida desregrada”, perdeu uma grande chance de ficar calada.

Até na política as regras de boas maneiras devem prevalecer. Numa democracia, o opositor é chamado de adversário, não de inimigo (para quem não tem idade para se lembrar, na nossa ditadura militar os opositores eram “inimigos da pátria”). Essa forma de qualificar quem não pensa como você traz, implicitamente, a ideia de que a divergência e o embate político devem se limitar ao campo das ideias. Esta é a regra número um de etiqueta na política.

A segunda regra é o respeito. Uma autoridade, principalmente se se tornou autoridade pelo voto, não é simplesmente uma pessoa física. Ela é representante da maioria dos eleitores de um país, e se deve respeito à maioria. Simples assim. Lula, mesmo sem mandato, também o merece. Desrespeitar um líder tão popular é zombar do discernimento dos cidadãos que o apoiam e o seguem. Discordar pode, sempre.

A terceira regra de boas maneiras é tratar um homem público como homem público. Ele não é seu amigo nem o cara com quem se bate boca na mesa de um bar. Essa regra vale em dobro para os jornalistas: as fontes não são amigas, nem inimigas. São pessoas que estão cumprindo a sua parte num processo histórico e devem ser julgadas como tal. Não se pode fazer a cobertura política, ou uma análise política, como se fosse por uma questão pessoal. Jornalismo não deve ser uma questão pessoal. Jornalistas têm inclusive o compromisso com o relato da história para as gerações futuras. Quando se faz jornalismo com o fígado, o relato da história fica prejudicado.

A quarta regra é a civilidade. As pessoas educadas não costumam atacar sequer um inimigo numa situação tão delicada de saúde. Isso depõe contra quem ataca. E é uma péssima lição para a sociedade. Sentimentos de humanidade e solidariedade devem ser a argamassa da construção de uma sólida democracia. Os formadores de opinião tem a obrigação de disseminar esses valores.

A quinta regra é não se deixar contaminar por sentimentos menores que estão entranhados na sociedade, como o preconceito. O julgamento sobre Lula, tanto de seus opositores políticos como da imprensa tradicional, sempre foi eivado de preconceito. É inconcebível para esses setores que um operário, sem curso universitário e criado na miséria, tenha ascendido a uma posição até então apenas ocupada pelas elites. A reação de alguns jornalistas brasileiros que cobriram, no dia 27 de setembro, a solenidade em que Lula recebeu o título “honoris causa” pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, é uma prova tão evidente disso que se torna desnecessário outro exemplo.

No caso do jornalismo, existe uma sexta regra, que é a elegância. Faltou elegância para alguns dos meus colegas.

(*) Colunista política, editora da Carta Maior em São Paulo.

20 de outubro de 2011

Primeiro de abril: Segundo “O Globo”, nascia um paraíso

Publicado em 30 de março de 2008 às 21:47, no Viomundo antigo

editorial de “O Globo”, em 02/04/1964

"Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor."

O “vocabulerolero” da velha mídia

Blog do Emir Sader

"Aqui algumas indicações sobre como ler a velha mídia. Nada do que é dito vale pelo seu valor de face. Tudo remete a um significado, cuja arte é tratar de camuflá-lo bem.

Por exemplo, quando dizem liberdade de imprensa, querem liberdade de empresa, das suas empresas, de dizerem, pelo poder da propriedade que tem, de dizer o que pensam.

A chave está em fazer passar o que pensam pelo interesse geral, pelas necessidades do país. Daí que nunca fazem o que deveriam fazer. Isto e’, dizer, por exemplo: “A família Frias acha que…” Ou: “A família Civita acha que…” e assim por diante.

A arte da manipulação reside em construções em que os sujeitos (eles) ficam ocultos. Usam formulas como: “É mister”, “Faz-se necessário”, “É fundamental”, “É’ indispensável”.

Sempre cabe a pergunta: Quem, cara pálida? Eles, os donos da empresa. Sempre tentar passar a ideia de que falam em nome do país, do Brasil, da comunidade, de todos, quando falam em nome deles. A definição mais precisa de ideologia: fazer passar interesses particulares pelos interesses gerais.

Quando dizem “fazer a lição de casa”, querem dizer, fazer duro ajuste fiscal. Quando falam de “populismo”, querem dizer governo que prioriza interesses populares. Quando falam de “demagogia”, se referem a discursos que desmascaram os interesses das elites, que tratam de ocultar.

Quando falam de “liberdade de expressão”, estão falando no direito deles, famílias proprietárias das empresas monopolistas da mídia, dizerem o que bem entendem. Confundem liberdade de imprensa com liberdade de empresas – as deles.

No “vocabulerolero” indispensável para entender o que a mídia expressa de maneira cifrada, é preciso entender que quando falam de “governo responsável”, é aquele que prioriza o combate à inflação, às custas das políticas sociais. Quando falam de “clientelismo”, se referem às politicas sociais dos governos.

Quando falam de “líder carismático”, querem desqualificar os discursos os lideres populares, que falam diretamente ao povo sobre seus interesses.

Quando falam de “terrorismo”, se referem aos que combatem ou resistem a ações norte-americanas. “Sociedades livres” são as de “livre mercado”. Democráticos sao os países ocidentais que tem eleições periódicas, separação dos três poderes, variedade de siglas de partidos e “imprensa livre”, isto é, imprensa privada.

“Democrático” é o pais aliado dos EUA – berço da democracia. Totalitário é o inimigo dos EUA.

Quando dizem “Basta” ou “Cansei”, querem dizer que eles não aguentam mais medidas populares e democráticas que afetam seus interesses e os seus valores.

Entre a velha mídia e a realidade se interpõe uma grossa camada de mecanismos ideológicos, com os quais tentam passar seus interesses particulares como se fossem interesses gerais. É o melhor exemplo do que Marx chamava de ideologia: valores e concepções particulares que pretendem promover-se a interesses da totalidade. Para isso se valem de categorias enganosas, que é preciso desmistificar cotidianamente, para que possamos enxergar a realidade como ela é."

Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP – Universidade de São Paulo.

27 de setembro de 2011

Rivaldo, o anti-anti-herói

Da Carta Capital

Aos 39, jogador dá aula para os meninos mimados da geração 2000 e vira símbolo de um campeonato que anda consagrando atletas desacreditados. Foto: Por Rubens Chiri / saopaulofc.net

Rivaldo é o grande meia-atacante brasileiro que já vi atuar. Não vi Zico, não vi Sócrates, não vi Gerson, não vi Rivellino. Mas posso dizer que, de 1994, quando fui contaminado pela praga de ser torcedor, até os dias atuais, nunca vi ninguém – nem Ronaldinho Gaúcho nem Kaká nem Paulo Henrique Ganso – fazer tanto pelo futebol brasileiro como o atual jogador do São Paulo.

Rivaldo é também o atleta que, por pouco, não sofreu uma das maiores injustiças do futebol nacional ao se aposentar num time pequeno, o Mogi Mirim (que também presidia), sem lembrar o gosto de fazer levantar uma torcida – algo que fazia com mais frequência até o final da década passada, quando viveu seu auge no Barcelona. De 1991, quando estreou pelo Santa Cruz, até hoje, o meia pernambucano disputou e ganhou praticamente tudo o que era possível, de campeonato paulista a Copa do Mundo. Foi ídolo no Corinthians, no Palmeiras e agora, no São Paulo, algo que pouca gente conseguiu.

Se tivesse ficado no Mogi Mirim, time pelo qual ganhou projeção, seguiria fazendo estrago. Mas não estamparia sua foto em capas de jornais e revistas esportivas nem seria reconhecido, como deveria, como autoridade no esporte ao qual se dedicou como operário-padrão.

Porque Rivaldo é um operário-padrão: há alguns meses, era um reserva inutilizado num time que não empolgava e hoje é o 12º titular de um sério candidato ao título. Nas duas situações, quando foi a campo, limitou-se a jogar bola. Deveria dar algumas aulas ao zagueiro Chicão, o candidato a ex-craque do Corinthians que virou reserva e se negou a ficar no banco, à disposição do clube que paga o seu salário, no clássico contra o São Paulo.

Por essas e outras, Rivaldo é uma espécie de anti-anti-herói do futebol nacional. Estourou num tempo em que a moda era ser bad boy, acelerar carro importado na rota das boates de luxo, dar declarações ofensivas ao adversário, comemorar gol imitando bicho, apontando dedo pra torcida (contra ou a favor, não importa) ou aparecendo com uma namorada nova a cada nova capa da revista Caras. Aos 39 anos, é muito provável que ele encerre a carreira num tempo que também não é dele: um tempo em que craque que é craque dá embaixadinha em tubo de antitranspirante para os pés ou posa de modelo de cueca e meia na propaganda da tevê.

O talento para garoto-propaganda é tanto que, em sua estreia pelo clube, quando marcou seu primeiro gol (na vitória contra o Linense, por 3 a 2, pelo Paulistão), o que era festa virou esporro: na hora de comemorar, como sempre, ergueu a camisa sobre a cabeça. O patrocinador, que precisava aparecer na estreia do pentacampeão, não apareceu na foto. Dirigentes e representantes da logomarca custaram a acreditar no que viram – no caso, no que não viram.

Rivaldo não tem busto de homenagem em nenhum clube por onde passou. E, se dependesse de seu apelo na tevê, morreria sem. Alto, magro e desengonçado, Rivaldo já foi alvo de comentarista esportivo que, em brincadeira/deboche, dizia que ele mais parecia um pedreiro do que jogador profissional – algo que talvez não fosse dito se o jogador pernambucano tivesse sotaque do Sul. E talvez fosse mais admirado se fosse mais gente fina com as emissoras, fizesse como todo mundo e imitasse o João Sorrisão em frente das câmeras a cada gol. Rivaldo chegou a ser recriminado por não participar da brincadeira e se negar a rebolar para o programa de tevê.

Enquanto falam da sua timidez, Rivaldo joga bola: anotou cinco gols no Brasileiro com muito menos tempo e mais idade em campo que muito moleque mimado que faz a alegria dos programas esportivos pretensamente engraçadinhos. A maioria dos gols foi decisiva. O último, por exemplo, impediu a derrota do seu time contra o Botafogo, em pleno Engenhão. Quando entrou em campo, o São Paulo perdia por 2 a 0. O gol de empate, marcado por ele já nos minutos finais, veio numa bola cruzada por Rogério Ceni.

Um colega, corintiano de andar de joelhos os anéis do futuro Itaquerão, chegou a comentar, dias atrás, que não lamentaria nenhum gol que Rivaldo anotasse pelos rivais do São Paulo. A promessa está mantida.

Gostem ou não, Rivaldo é hoje o principal exemplo de um campeonato que, se terminasse agora, consagraria atletas que há pouco tempo eram esnobados pelos clubes pelos quais passaram. Tecnicamente, a edição 2011 do Brasileiro pode não ser a mais brilhante (e qual é que foi?), mas, a exemplo do Rivaldo, tem sido didática em vários sentidos. Se terminasse hoje, teria como campeão um time praticamente formado por refugos, a começar pelo treinador, hoje ausente por problemas de saúde e que parecia desacreditado até conquistar, no primeiro semestre, a Copa do Brasil com o Vasco da Gama. O grande destaque da equipe é Diego Souza, escorraçado no Palmeiras e mal aproveitado no Atlético Mineiro nas duas últimas temporadas. Jumar, Eder Luís, Alecssandro e Leandro não brilham com a mesma intensidade, mas têm históricos parecidos de injustiças e perseguições.

Juninho Pernambucano, espécie de líder do time, era considerado um ex-jogador em atividade, e ao deixar o futebol árabe chegou a ser esnobado por metade dos clubes brasileiros. Humilde, voltou ao clube pelo qual se consagrou com um salário muito, mas muito abaixo do inflacionado mercado da bola. A torcida não poderia ser mais grata. Hoje, ele e o time de refugos vascaínos jogam bola e ofuscam muito pseudo-ídolo mimado que surge em campo como nova promessa.

Por fim, vale lembrar também que o artilheiro do campeonato, o santista Borges, é o mesmo atacante que no Grêmio e no São Paulo praticamente tinha que pedir licença para jogar.

Enquanto isso, a aposta em estrelas feita por outros clubes começam a dar em nada. O Palmeiras, por exemplo, dá uma lição a cada jogo sobre como minar qualquer desenho de união em uma equipe ao dar afagos e mimos a dois jogadores, antigos quase ídolos, que estão tão preocupados com o clube quanto com o drama das formigas albinas da Malásia. Cai pelas tabelas porque nitidamente a base de operários não está disposta a segurar a onda dos reizinhos Kleber e Valdívia – que, juntos, somam quatro gols no campeonato, menos do que Rivaldo, com quase o dobro da idade deles. Dá para pensar que o técnico Felipão rola de raiva quando vê pela tevê cada gol do jogador que ele decidiu aposentar precocemente, ao cortar qualquer possibilidade de Rivaldo voltar a atuar no Parque Antártica porque estaria velho. Achou que estaria em melhores mãos (ou pés) com Patrick e Luan.

Rivaldo tem também mais gols que Paulo Henrique Ganso, o menino prodígio do Santos que ultimamente anda com mais vontade de fazer foto para comercial do que em ampliar a marca de dois gols que soma no campeonato. Mário Fernandes, o jogador do Grêmio que dormiu na casa de um amigo e “esqueceu” de servir à seleção, tem, por exemplo, um mísero gol no Brasileiro. A geração dos meninões não poderia estar mais bem representada.

Como no futebol não existe lógica, eu que não vou me arriscar aqui a dizer que a aposta em jogadores supostamente com o moral baixo é o melhor custo-benefício para se montar equipes competitivas. Mas nunca duvidei o que a fome de querer vingar injustiças pode produzir no futebol. Nessa, Rivaldo, que já deveria estar consagrado, é o melhor exemplo – mesmo que lhe falte o talento para rebolar feito o João Sorrisão.